Ética e Moral no Cinema

Por instituto LCA 30/08/2020

Ainda quando o cinema deixava a puberdade, espremendo as espinhas dos seus 17 anos de garimpo, e apresentava ao mundo D. W. Griffith e sua nova linguagem cinematográfica (reconhecida como a linguagem cinematográfica moderna), o naufrágio do Titanic dava conta de entregar à indústria cinematográfica uma avalanche de argumentos cheios de potencialidades midiáticas. A partir da fatídica noite de 14 de Abril de 1912, quando o RMS Titanic chocou-se contra um iceberg no Oceano Atlântico, os produtores, estúdios e realizadores viram no evento uma fonte de história (e de renda) inesgotável. Logo no mesmo ano, começaram a nascer filmes e documentários sobre o naufrágio. In Nacht und Eis (Na noite e no gelo, em tradução literal), alemão de 1912, com 35 minutos de duração, uma das mais longas produções da época; A Survivor from the Titanic (Uma sobrevivente do Titanic), inglês também de 1912, escrito e protagonizado por Dorothy Gibson, sobrevivente do navio; Titanic, americano de 1953, vencedor do Oscar de melhor roteiro original em 1954;

A Night to Remember (Somente Deus por testemunha, em tradução livre), americano de 1958, baseado no livro homônimo de Walter Lord de 1956. Quatro décadas depois vieram Titanic, de 1996, filme americano para a TV, que viraria minissérie; e, finalmente, em 1997, o grande e histórico Titanic, dirigido por James Cameron e lançado pelos Estúdios Paramount Pictures e 20th Century Fox. Muito provavelmente tendo como fonte inspiradora o filme televisivo do ano anterior, o longa, orçado em US$ 200 milhões, conquistou a maior bilheteria de todos os tempos durante 12 anos (até ser superado por Avatar, do mesmo Cameron), venceu 11 Oscar e foi o primeiro a ultrapassar a arrecadação de US$ 1 bilhão de dólares com bilheteria em todo o mundo.

A mais recente polêmica sobre o resgate do rádio dos destroços do navio mais famoso de todos os tempos nos oferece a oportunidade de refletir sobre a ética e a moral no cinema mundial.

Muito provavelmente todas as 2.240 pessoas a bordo do Titanic pudessem nos oferecer, cada uma delas, uma história diferente do drama da tragédia. Mas, talvez, nenhum filme fosse tão rico se contasse a história do naufrágio e sua grande tragédia pelas “vistas” do capitão Edward J. Smith, oficial comandante do navio em sua viagem inaugural.

E por que não o fizeram até hoje?

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, um dos que mais se debruçaram nos estudos sobre ética, moral e valores, muito abordou a ética consequencialista de John Stuart Mill. Essa abordagem acredita que as consequências das nossas ações são as únicas responsáveis pelo padrão da ética, nos levando às consequências morais sobre o certo e o errado. Realizar um “Titanic” tendo o capitão Edward como protagonista é tentador. Mas qual seria a consequência disso? Um filme documento, como deve ser o que trate de episódios reais, não tem o direito de subverter os fatos. E sem subvertê-los (ou mesmo o fazendo) um filme sob a ótica do capitão o estaria julgando.

Na história do cinema, a ética e a moral são objetos de cuidado. O cinema neo-realista italiano, que atravessou o regime fascista de Mussolini (1922-1945), nos entregou muitas obras éticas importantes e históricas. Paisá (1946), de Roberto Rossellini, um filme episódico, narrado usando a invasão americana como trama central e realizado na Itália destruída pela guerra, nos deixa um grande legado ético quando não julga os alemães como invasores nem os americanos como salvadores, sequer o seu próprio povo como coitado. Já, em Ladrão de bicicleta (“Ladri di biciclette”, 1948) Vittorio De Sica trata da ética dentro da própria história, quando deixa fracassar a tentativa do protagonista, ao lado do filho menor, de roubar uma bicicleta que seria a salvação do seu emprego.

Aleluia que a ética e a moral no cinema são preservadas em respeito às memórias dos pioneiros da sétima arte e a nós, espectadores.

No Instituo de Cinema LCA você aprenderá a fazer cinema e audiovisual com moral e ética.

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