CORTO MALTESE – AS HELVÉTICAS, DE HUGO PRATT

Por instituto LCA 27/08/2020

“Eu não sou um herói. Eu gosto de viajar e não me importo com regras, mas respeito apenas uma: eu nunca traio amigos.

Procurei por muitos tesouros e nunca encontrei nem ao menos um, mas continuarei procurando, você pode contar com isso (...)”

É como se descreve Corto Maltese. Para os que não o conhecem, o italiano de Malta é um marinheiro, capitão da Marinha Mercante Britânica, que vive a viajar pelo mundo. Essa minha introdução descritiva, que nada diz, contrasta com a descrição anterior, por ele mesmo: um não-herói, viajante, alheio à regras, que preza suas relações com os amigos que faz em sua jornada. Mas o meu maior destaque vai para a sua busca, infrutífera e constante.

Publicada no Brasil em 2012 pela Editora Nemo, Corto Maltese - As Helvéticas nos leva a viajar com o marinheiro e seu amigo Jeremiah Steiner até a casa do escritor Hermann Hesse, na Suíça. A história abre com os dois em um carro, adentrando a paisagem suíça, conversando sobre o amigo que visitarão. As primeiras páginas da história ilustram com grande quantidade de detalhes a primeira ambientação. O que contrastará mais a frente com a paisagem onírica que servirá de cenário para a maior parte da história.

Ao chegar na casa do escritor, não o encontrando, Steiner se afasta de Corto, que conversa com um menino. O menino se anuncia como o próprio Hermann Hesse, e conforme Corto estranha sua pouca idade, ele encolhe e se faz desenho na parede da casa, explicando ser projeção da imaginação, não só de Hesse, como de outro autor, Von Eschenbach. Corto segue confuso, mas não espantado. A figura do menino dá lugar a de um cavaleiro, Klingsor, que mais a frente pedirá a Corto que parta em uma busca para ele.

Importante o fato de que toda essa estranheza é tomada por Corto com certa naturalidade. Às figuras imaginárias, que falam com ele, questiona na mesma medida que aceita o insólito. Mais tarde ele vai à sua hospedagem para ler o livro que pegou emprestado na casa de Hesse, o romance medieval Parsifal. Ao que começa a lê-lo em sua cama, Corto acessa o mundo imaginário, seguindo Klingsor em busca do Santo Graal.

A história recheada de referências pode assustar um pouco a princípio aos que não as conhecem, porém, mais do que um diálogo com quem conhece os personagens reais e imaginários e as citações que vão aparecendo, o quadrinho provoca o leitor a, findada a leitura, conhecer mais das obras citadas diretas ou indiretamente na história. Dessa maneira o entendimento do quadrinho não é comprometido mesmo ao leitor que não conheça todas as suas referências, apenas agrega mais camadas ao que as conhece.

A maior parte da história se passa nesse mundo imaginário visitado por Corto, onde acompanharemos sua busca por algo que, curiosamente, não deseja, mas que é desejo do cavaleiro Klingsor – desejo de outro, e de tantos outros antes dele. Talvez ao final da história tenhamos, ou não, um tesouro encontrado, mas essa preocupação é pequena para o leitor, por ser também consideravelmente desimportante para Corto, que inicia, prossegue e finda a jornada movido apenas pela curiosidade quanto à experiência vivida. Curiosidade essa que pode ser considerada uma segunda busca, pela verdade. Mas a verdade que Corto busca é um meio termo entre real e imaginário.

Diferente da paisagem desenhada no início - fixa e realista, o mundo onírico é flexível e mutável, menos detalhado, onde o que é desenhado está ali por ser mais diretamente um elemento da história. Além disso, a simplicidade aparente do traço para o cenário imaginário também distancia bem os dois mundos, fazendo ficar claro para o leitor que Corto não está enganado – como afirmam os habitantes daquela realidade, mas que aquele é, de fato, um mundo onírico, separado da realidade dele.

Corto Maltese é a principal criação do artista italiano Hugo Pratt. Ambos viajantes, pode-se ver muito da vida do autor em seu personagem. As viagens de Hugo Pratt serviram-lhe de inspiração para dar a Corto Maltese aventuras que levassem aos seus leitores muito do que via por onde passava, desde uma visão mais universal e precisa, até à mais particular. O que vemos ao ler Corto Maltese não é retrato fiel de realidades imutáveis mas possibilidades de mundos a serem vistos ao mesclar o real com o imaginário.

As Helvéticas é uma boa amostra dessa relação autor-personagem. Mas Hugo Pratt vai além, aproximando o personagem também do leitor: aqui, ambos leitores, visualizadores de uma paisagem imaginária. E é no texto que a aproximação acontece. Hugo Pratt, projeta-se em Corto, que projeta o leitor na história quando dialoga sobre o que é real: se é quem lê ou se é quem é lido – o imaginador ou o imaginário. Ao observarmos o marinheiro em sonho, questionando a realidade em que está inserido, afirmando que a sua própria que é a verdadeira, não podemos deixar de sorrir ao vermos do nosso próprio nível de perspectiva. Como alguém que sonha um sonho sonhando um sonho, ou que lê em uma obra um personagem lendo outra. Esse nivelamento e discurso sobre o ato de ler, de imaginar, de sonhar, nos aproxima do personagem e do autor, e ao mesmo tempo os aproxima de nós, leitores.

Sabendo-se em sonho, Corto enfrenta todos os desafios sem muitos temores, correndo apenas de um: a morte. Pois bem sabemos, mesmo sonhando, que não se dá chance à morte.

Fontes das imagens: https://grupoautentica.com.br/fique_por_dentro/releases/novo-album-da-serie-do-corto-maltese-chega-ao-brasil-pela-editora-nemo/62 [imagens 1-3]

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hugo_Pratt_a_San_Isidro.jpg [imagem 4]

https://www.focus-litterature.com/8952651/les-helvetiques-hugo-pratt-editions-altaya-1299/ [imagem 5]

Fonte da citação: https://cortomaltese.com/en/my-story/

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